Josérangers Ep 2 Parte 4




A cena se abria no caixa da lanchonete. Tiago, em sua forma humana, estava sentado atrás do balcão. Logo abaixo dele, um notebook aberto mostrava um jogo de baralho rodando — aparentemente o “truco galáctico”, um dos favoritos dele. Ao lado, sobre o balcão, havia uma máquina metálica que girava devagar, mantendo quentinhas algumas salsichas brilhantes. Não eram salsichas comuns: faziam parte da coleção King Priece, um lote raro e valorizado, tão especial que muitos colecionadores dariam uma fortuna por elas.

Enquanto isso, o homem mascarado finalmente se aproximava. O silêncio parecia pesar sobre os dois. Tiago levantou o olhar, sem pressa, percebendo a presença estranha.

— Bom dia… deseja algo, senhor? — perguntou Tiago, de maneira calma, quase casual, como se atendesse qualquer cliente.

O mascarado não respondeu. Ele levou a mão ao bolso e puxou de lá uma arma metálica, erguendo-a rapidamente e apontando para Tiago.

— ISSO É UM ASSALTO, PORRA! — gritou, fazendo ecoar pela lanchonete.

Alguns clientes deram um pulo, soltando gritos nervosos. Um casal se abaixou atrás da mesa de plástico estampada de patrocinadores de cerveja. O barulho do grito e a visão da arma ecoaram ainda mais quando o homem disparou para cima: BANG!. O som foi ensurdecedor, e fragmentos do teto caíram, aumentando o pânico geral.

Ryan, que estava voltando do salão, se jogou para trás de uma coluna, respirando fundo, mas não ousando sair dali. Luka, por outro lado, não parecia tão abalada. Seus olhos se estreitaram, mas havia uma tranquilidade firme em sua postura. Ela sabia: Tiago poderia acabar com aquilo em segundos. Sua preocupação não era com ele, mas sim com os clientes em volta, que tremiam e tentavam se encolher ao máximo.

Já Tiago… não demonstrava nem um pingo de medo. Seus olhos estavam fixos no assaltante, e sua expressão era quase entediada. Dentro de sua mente, ele refletia:

"Droga… se eu for com muita força, vou mandar esse coitado direto pro hospital. Mas se for de leve demais, talvez ele não aprenda a lição. Como é que eu faço pra bater o suficiente sem exagerar?"

Enquanto pensava, o assaltante pressionava a arma contra a própria cabeça de Tiago.
— FICA QUIETO, VAGABUNDO! NINGUÉM SE MEXE! PASSA O DINHEIRO AGORA! — rugiu nervoso.

O clima estava carregado, os clientes aterrorizados, Ryan escondido… e Luka apenas esperando o momento em que talvez precisasse agir.

— Mãos pra cima! — gritou o homem, encostando de novo a arma na cabeça de Tiago.

Tiago, que ainda refletia se deveria ou não derrubar o sujeito de uma vez, soltou um suspiro e pensou: “Quer saber… vou entrar na brincadeira.”

Ele se levantou lentamente da cadeira e ergueu as mãos acima da cabeça, obedecendo.
O assaltante, percebendo que tinha o controle, ordenou em voz dura:

— Vira de costas, anda logo!

Tiago obedeceu, se virando devagar, mas com um sorrisinho escondido. Enquanto isso, o homem, confiante, olhou para a máquina ao lado. Dentro dela, as salsichas raríssimas giravam, soltando aquele cheirinho irresistível. Ele não resistiu.

— Hm… isso aqui deve ser bom… — murmurou o mascarado.

Sem pensar duas vezes, ele tirou a máscara do rosto, esticou a mão, pegou uma das salsichas espetada no palito e levou até a boca.

Mesmo de costas, Tiago já sabia o que estava acontecendo. Com um tom debochado, ele soltou:

— É melhor ter cuidado… pode estar um pouco quente.

O homem deu de ombros e, confiante, encostou a língua na ponta da salsicha.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAH! — gritou do nada, largando a arma no susto e pulando feito louco.

O salão inteiro arregalou os olhos. Os clientes, que estavam encolhidos, olharam com espanto a cena ridícula.

O sujeito rodopiava desesperado, abanando a boca com as duas mãos, cuspindo fumaça como se fosse uma chaleira.

— TÁ PEGANDO FOGO!!! — berrava ele, com lágrimas descendo.

O motivo era simples: além de estarem quentinhas, aquelas salsichas da coleção King Priece tinham uma camada de molho picante especial — o famigerado Molho Vulcânico do Deserto de Orion. Só uma lambida já fazia a língua queimar como brasa.

O assaltante gritava, tropeçava, quase caiu no balcão. A salsicha escorregou da sua mão e começou a despencar em direção ao chão…

Mas antes que atingisse o piso, uma mão firme segurou o palito.

O salão inteiro se virou para ver quem tinha pegado.

Era João Gabriel.

João segurava firme a salsicha no palito, erguendo-a como se fosse um troféu. O homem mascarado, ainda com a boca ardendo e os olhos lacrimejando, olhava incrédulo. A arma que antes estava firme em sua mão agora repousava caída ao lado de seu pé.

João deu um passo à frente, encarando o sujeito com desprezo:

— Como você… seu miserável… pode ousar quase desperdiçar essa salsicha?!

Ele apontou com força o dedo para o palito.

— Não sei se você tem noção, seu merda, mas essa budega aqui vale… praticamente um terço do meu salário!

O salão inteiro ficou em silêncio. Alguns clientes até soltaram um “Ooooh” de surpresa, como se estivessem assistindo a um ringue de luta livre.

O homem respirou fundo, com ódio estampado no rosto vermelho ainda pelo molho picante. Ele rangeu os dentes, se abaixou e agarrou novamente a arma caída.

— Seu idiota… acha que vou ficar com medo de um cara defendendo uma salsicha?! — gritou, apontando de volta para João.

João sorriu de canto, confiante, e levantou a salsicha diante do rosto como se fosse uma espada sagrada.

— Você não entendeu ainda, né? Isso não é “uma salsicha”… isso é um tesouro culinário.

O assaltante, sem paciência, puxou o gatilho.

Mas antes que pudesse atirar, uma sombra rápida surgiu. Tiago, que até então observava com calma atrás do caixa, se lançou por cima do balcão com a velocidade de um felino.

— TÁ ACHANDO QUE EU TÔ AQUI SÓ OLHANDO, É?! — gritou Tiago.

O chute veio seco, certeiro, na mão armada do criminoso. O impacto fez a arma voar longe, batendo contra uma parede e caindo no chão com um barulho metálico.

O assaltante gritou de dor, segurando o pulso.

— AAAAAH, FILHO DA…!

Mas não teve tempo de terminar.

João, que estava exatamente na entrada da lanchonete, usou a própria moldura da porta como apoio. Ele firmou os pés no chão, se impulsionou com toda força e voou pelo ar em linha reta.

— VOOOOOAAAAADORA!!! — gritou, rindo no meio do salto.

O chute duplo explodiu contra o rosto do assaltante, que foi arremessado para trás como um saco de batata. Ele rodopiou no ar, bateu contra duas mesas e desabou no chão, deixando os clientes boquiabertos.

As garrafas de cerveja que estavam nas mesas caíram no chão, fazendo barulho de estilhaços.

João aterrissou de pé, ajeitando o casaco e ainda segurando a salsicha intacta. Ele olhou para o sujeito desacordado e falou com desprezo:

— Isso é o que acontece quando você mexe com comida de verdade.

Tiago, que agora estava ao lado dele, cruzou os braços e completou com ironia:

— E também quando você resolve brincar de bandido na minha lanchonete.

Ryan saiu de trás do balcão onde estava escondido, batendo palmas devagar.

— Palmas, palmas… show de comédia e ação ao vivo. Valeu cada centavo do ingresso.

Luka, do lado, apenas balançou a cabeça e suspirou, enquanto recolhia pratos quebrados do chão.

— Eu sabia que vocês iam resolver isso rápido… mas custava não quebrar metade da lanchonete no processo?

João ergueu a salsicha como troféu e sorriu:

— Relaxa, Luka… o importante é que a comida sobreviveu.

Os clientes, que antes estavam aterrorizados, começaram a rir e até aplaudir. Um deles gritou:

— EU QUERO UMA DESSAS SALSICHAS AÍ, CAMPEÃO!

Tiago bufou, mas deu uma risada de canto.

— Tá vendo o que você arrumou, João? Agora vamos ter que botar “Salsicha Mortal” no cardápio.

João, sem perder a piada, completou:

— Desde que venha com desconto pra funcionário, eu topo.

E assim, enquanto o assaltante ainda gemia desacordado no chão, a lanchonete voltava ao caos habitual… mas com um detalhe: todos agora sabiam que ali não era um bom lugar pra arrumar confusão.

Tiago olhou para o homem desacordado no chão, coçou o queixo e suspirou.

— Bom… acho que ele já aprendeu a lição — disse, pegando o pulso do sujeito e levantando-o levemente.

João e Ryan ajudaram a colocá-lo em pé, ainda cambaleando. Tiago então deu um peteleco na testa dele, e o homem imediatamente desabou, dormindo profundamente, como se tivesse recebido um tapa de efeito instantâneo.

— Bye bye, meu caro — falou Tiago, olhando para o homem com um sorriso debochado enquanto todos se aproximavam para garantir que ele não iria causar mais problemas.

João e Ryan conduziram o sujeito desacordado até o carro da polícia que havia chegado minutos depois, entregando-o às autoridades.

Enquanto isso, alguns clientes que estavam sentados na lanchonete observavam toda a cena, ainda surpresos e aliviados. Alguns cochichavam entre si sobre a audácia de Tiago e João, outros já voltavam a comer seus lanches, rindo discretamente da situação.

O relógio de dinossauro na parede marcava 13:50, e o ambiente voltava lentamente à calma habitual da lanchonete.

João olhou para Tiago e balançou a cabeça, ainda incrédulo:

— Nossa… até agora nada deles, hein?

Luka, encostada no balcão, suspirou e respondeu com cautela:

— Relamente… eu tenho minhas dúvidas se esse lugar existe mesmo.

Tiago sorriu, cruzando os braços, confiante:

— Existe sim. Só que… fica um pouco longe, só isso.

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