Josérangers Ep 2 Parte 3

 


A cena se abre mostrando a lanchonete em plena atividade. Algumas pessoas estão sentadas nas mesas de plástico espalhadas pelo ambiente simples, onde garrafas e copos estampados com patrocínio de cerveja brilham sob a luz amarelada. O relógio de parede, em formato de dinossauro, marca 11h20, dando um charme peculiar ao local. O burburinho das conversas se mistura com o barulho dos talheres e pratos, criando uma atmosfera animada e acolhedora.

No fundo da lanchonete, pela porta entreaberta da cozinha, é possível ver João Gabriel e Luka trabalhando lado a lado, preparando os pratos com atenção. Eles cortam legumes, fritam salgados e mexem panelas, a rotina que antes era limitada apenas a salgadinhos e doces agora está se expandindo para refeições completas. Desde que eles entraram para a equipe, Tiago tomou a decisão de transformar o local em algo maior — um ponto que não apenas vende petiscos, mas que serve almoço para a clientela que cresce a cada dia.

Tiago justificou a expansão dizendo que, com o aumento do número de funcionários e a movimentação maior, os negócios precisavam acompanhar esse crescimento. O espaço foi adaptado, uma nova área para refeições foi organizada, e o cardápio ganhou pratos quentes, oferecendo mais opções para quem frequenta o lugar, seja para um lanche rápido ou uma refeição mais completa.

Enquanto isso, os clientes conversam animadamente, alguns até comentando sobre as recentes mudanças na cidade e os estranhos acontecimentos que rondam o cotidiano. Lá dentro, entre uma fritura e outra, João e Luka se dedicam com empenho.

O som dos talheres batendo nos pratos e o burburinho dos clientes preenchia o ar. Ryan, com seu bloco de anotações já todo rabiscado, fazia malabarismos entre as mesas, equilibrando copos e pratos enquanto sorria para cada freguês. No caixa, Tiago mantinha a postura séria, mas os olhos atentos acompanhavam o movimento da lanchonete como um general observando seu quartel — registrando pagamentos, conferindo troco e de vez em quando acenando para um cliente conhecido.

— Mesa três pediu mais refrigerante! — Ryan avisou, passando rápido pelo balcão, antes de desaparecer entre as cadeiras.

A cena então cortava para os fundos da cozinha. O cheiro forte de tempero e fritura se misturava ao vapor que subia das panelas. Luka, concentrada, passava o pano nas últimas louças como se estivesse polindo ouro. João, ao lado, finalizava um prato com maestria — arroz soltinho, carne dourada e salada fresca — antes de colocá-lo na bandeja e entregá-lo para Ryan.

— Luka, vou ali rapidinho… já volto, viu? — disse João, enxugando as mãos no avental.

— Volta logo, não vai me deixar na mão! — ela respondeu, sorrindo de leve, mas sem parar o movimento do pano.

João assentiu e seguiu até a porta da cozinha, atravessando a lanchonete com passos firmes. Passou pelas mesas cheias, pelos clientes que riam e bebiam, pelo som de talheres e copos tilintando… até que alcançou a porta de saída.

Foi nesse momento que ela se abriu, revelando uma figura que destoava de todo o cenário acolhedor: um homem de estatura média, usando um moletom preto com o capuz levantado, boné escuro por baixo e uma máscara que cobria quase todo o rosto. Seus olhos, duros e inexpressivos, vasculhavam o ambiente com um ar pesado e estranho.

O sino da porta tilintou fraco, mas o silêncio repentino de algumas mesas parecia mais alto. Tiago, atrás do caixa, ergueu levemente as sobrancelhas, sem tirar os olhos do recém-chegado.

João Gabriel sai pela porta da lanchonete, sentindo o ar fresco da rua bater em seu rosto. Ele ajusta a jaqueta, olha para os lados e começa a caminhar calmamente pela calçada, enquanto fala em voz baixa, como se chamasse alguém que só ele conhecesse bem:

— Bolota... Boloooota... vem aqui, garota...

Ele continua andando, abaixando o tom da voz e inclinando um pouco o corpo para frente, procurando nos cantos, perto das paredes e do pé de um poste. Até que, vindo de trás de um pequeno muro de tijolos, surge ela — uma gata gordinha, com o pelo cinza-rajado, manchas brancas no peito e nas patinhas, olhos grandes e amarelados, que brilham ao ver João. A cauda dela é fofa e espessa, balançando lentamente de um lado para o outro.

Ao avistar João, a gata solta um miado longo e manhoso, quase como se estivesse reclamando da demora:

— Miaaau...

João sorri, se agacha e passa a mão na cabeça dela, sentindo o pelo macio.

— E aí, Bolota? — diz ele, coçando atrás da orelha dela, o que a faz fechar os olhos de prazer. — Tá com fome, né?

Bolota dá um passo para frente, roçando o corpo pesado contra a perna dele. João, rindo, leva a mão ao bolso da jaqueta e puxa uma pequena sacolinha de plástico amassada. Lá dentro, havia ração seca para gatos — ele sempre carregava um pouco, só para ela.

— Olha o que eu trouxe...

Assim que ele despeja um punhado no chão, perto de um cantinho limpo da calçada, Bolota imediatamente abaixa a cabeça e começa a comer com pressa, como se estivesse há horas sem ver comida, soltando pequenos ruídos enquanto mastiga. João observa com carinho, ficando de cócoras ao lado dela, vigiando para que nenhum cachorro apareça para atrapalhar.








Voltamos para dentro da lanchonete. Ryan, equilibrando dois pratos com refeições recém-preparadas, se aproxima de Luka no balcão da cozinha.

— Aí, Luka… você sabe quando a Beka e os outros vão voltar? — pergunta Ryan, apoiando o quadril no balcão.

Luka, que estava limpando uma tábua de cortar legumes, ergue uma sobrancelha e responde com um meio sorriso irônico:

— Eu pensava que você sabia onde sua namoradinha e seu cunhadinho estavam.

Ryan franze a testa.

— Eu sei que eles saíram pra pegar uns produtos… mas não é demais levar três pessoas pra isso?

Assim que ele fala isso, Luka pausa o que estava fazendo, e um flashback surge em sua mente.


FLASHBACK – MAIS CEDO, 6:50 DA MANHÃ

A lanchonete ainda estava fechada. Os cinco jovens — Beka, Junin, Max, Luka e João — organizavam mesas, limpavam o chão e ajeitavam cadeiras. O relógio redondo na parede, com ponteiros em formato de talheres, marcava 6:50.

Tiago, na sua forma Alpha 9, supervisionava a equipe com os braços cruzados, observando como cada um trabalhava. A meta era deixar tudo pronto antes das 8:00.

Quando o relógio bateu 7:30, Beka e Junin se posicionaram diante da porta de rolar da entrada. Beka segurou a lateral, Junin segurou no meio.

— Vai, puxa pra cima. — disse Beka.

Junin puxou, mas a porta travou no meio do caminho. Ele tentou mais uma vez, mas nada.

— Aff, você não consegue nem abrir uma porta? — provocou Beka.

— E você acha que conseguiria, madame? — rebateu Junin, soltando a porta.

Beka, com um sorriso de desafio, pegou no puxador e puxou… mas a porta não subiu nem um centímetro.

— Viu? É a porta que tá ruim, não eu. — ela retrucou.

Os dois começaram a discutir por pura besteira, elevando o tom de voz. Foi nesse momento que Max apareceu, com um pano de prato no ombro.

— Gente, calma… não precisa—

— CALA A BOCA, MAX! — gritaram Beka e Junin juntos, virando para ele com olhares assassinos.

Max só suspirou e levantou as mãos, desistindo de intervir.

Beka e Junin trocaram um olhar desafiador, como se dissessem sem palavras: Vamos ver quem consegue.
Os dois se abaixaram, seguraram a porta com força e puxaram ao mesmo tempo… só que puxaram com MUITA força.

O resultado?
A porta de metal se soltou completamente, subindo num tranco e batendo no teto, se despedaçando em vários pedaços que caíram com estrondo no chão.

O barulho ecoou tão alto que todos na lanchonete olharam. Tiago, furioso, marchou até eles.

— MAS QUE… VOCÊS DOIS TÃO PENSANDO O QUÊ?! — ele berrou, dando um coque forte na cabeça de cada um.

Max tentou abrir a boca para se defender, mas Tiago apontou para ele:

— E VOCÊ, MAX! Cadê a moral pra segurar esses dois?

Depois de alguns segundos de bronca, Tiago, ainda bufando de raiva, respirou fundo e disse:

— Olha… é o seguinte. Vocês três vão ter que arrumar outra porta igual a essa.

— Ah, tranquilo. Deve ser fácil de achar. — disse Junin, dando de ombros.

Tiago então se aproximou, apontando o dedo para ele:

— Eu disse IGUAL. Por isso… vocês vão ter que ir até esse lugar.

Ele então tirou de algum compartimento escondido um papel amassado. No topo, estava escrito em letras grandes:

Mapa para ir até os Cafundós de Judas.

Max pegou o papel e olhou incrédulo.

— Pera… isso é sério, Tiago?

— Muito sério. Quero que os três vão. Ah, e peguem um carro… recomendo, porque é LONGE.

— Mas que carro? — perguntou Beka.

— Não sei… se virem. — respondeu Tiago, se virando e deixando os três com a missão.





Vemos Ryan tentando chamar a atenção de Luka, chegando a estalar os dedos perto do rosto dela

.
— Terra para Luka — disse ele, em tom meio zombeteiro.

Ela então recobrou o foco, piscando algumas vezes, antes de responder:


— Foi mal… me perdi em lembranças de mais cedo. Mas acho que os três devem demorar um pouco mais, até porque o lugar que eles foram é bem longe. Mas… acho que eles levaram celulares. Bom, eu espero que eles retornem logo — falou Luka, pensativa.

— Você só vai ficar falando besteira ou vai entregar os pedidos? — perguntou ela, agora em tom brincalhão, com um leve sorriso.

— Me pegou… tava ganhando tempo pra não fazer nada. Bom, vou indo então — disse Ryan, saindo com uma expressão de quem já previa o trabalho.

Enquanto isso, vemos que aquele estranho homem se aproximava lentamente do caixa, onde Tiago estava atendendo. O olhar dele era sério, e uma de suas mãos parecia estar dentro do bolso do casaco. Dentro dele… algo com o formato muito semelhante ao de uma arma.

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